Segunda a Sexta Feira
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CONVERSAS COM ALEXANDER LOWEN (publicado originalmente na revista Mente e Cérebro, em fevereiro de 2005)
Autor: Ruy Fernando Barboza
Dia 28 de outubro de 1993, acordo, chorando, às 7h13 da manhã, em Nova York. Vou pegar o trem na Grand Central Terminal às 8h40, para estar em New Canaan, Connecticut, às 10h13. Lá terei minha primeira sessão com Alexander Lowen, criador da Análise Bioenergética, às 11 horas. Até então, só conheço Lowen pelos seus livros, e por uma foto, da capa de "Exercícios de Bioenergética", que ele escreveu com sua mulher Leslie (publicado no Brasil pela Editora Agora).
Ainda na cama, rememoro o sonho que acabei de ter. No sonho estou em sessão com Lowen, contando-lhe um sonho. E, enquanto conto, começo a viver, no meu sonho, o sonho que estou relatando. Estou sob um imenso viaduto, uma grande laje de concreto, e ao meu lado há uma ladeira muito íngreme, quase vertical, que um caminhão-pipa tenta subir e não consegue. O caminhão começa a voltar de ré e tenho medo que me esmague. Saio de lado, mas também tenho medo de que a laje caia sobre mim. Lowen interfere, me perguntando "What do you feel?" (O que você sente?) e eu respondo cometendo um lapso. Querendo dizer "Medo", digo "Fair, fair!" (justo), corrigindo em seguida para "Fear, fear!" (medo). Lowen tem um copo vazio na mão, e vai para a parte de trás do caminhão, abrindo uma torneira. A água jorra aos borbotões e eu sinto mais medo. Primeiro, porque era um roubo, e segundo porque havia um perigo naquilo. Assustado, digo "por que você faz isso? Não, não faça isso!". Imperturbável, Lowen, sempre no sonho, prossegue com a minha sessão, incentivando-me, enfaticamente, a gritar com ele, repetindo "por que você faz isso? Não, não faça isso! Vamos, diga", ele insiste. Acordo, num choro convulso e desesperado - que me lembrou um choro muito prolongado, que me ocorrera alguns dias antes, no Museu de Arte Moderna de Nova York, ao entrar na sala onde estavam algumas das imensas telas simples, fortes, quase monocromáticas - uma verde, outra vermelha, outra profundamente azul, do final da vida de Miró.
Vamos saltar para o dia seguinte, 29 de outubro de 1993, às 10h30 da manhã. Estou pela segunda vez na casa de Lowen, para uma nova sessão individual. Saindo para dar uma volta de carro (adora dirigir), ele passou por mim há alguns minutos, surpreso: "Chegou cedo!". "Medo de perder o táxi", eu respondo, e ele sorri com ironia. É que no dia anterior a conexão do trem em Stanford foi cancelada sem aviso, perdi um ônibus e apelei para um táxi que errou o caminho. Cheguei à sessão nervoso e 15 minutos atrasado. Hoje a ansiedade me levou a chegar 35 minutos adiantado. Foi bom. Ele me disse para ficar à vontade, percorrendo e fotografando o andar térreo de sua casa - um amplo e belíssimo condomínio rural, com haras, campos de flores, um bosque exuberante e um belo jardim cheios de esquilos, com caminhos de pedra, ainda ladeados pelas máscaras de abóboras do Halloween, que ocorreu há poucos dias. Os dias de outono estão lindos e o solo repleto de grandes folhas. Por timidez, perco a mais bonita das fotos: Leslie Lowen, na beleza de seus setenta e tantos anos, passeando pelo pátio com uma arara em cada braço. Ajudo-a em seguida a receber uma entrega de ovos, e ela me pede para abrir a porta para um que entrega latas de óleo.
Sinto-me bem acolhido, aliviando um pouco a angústia, a impotência, a vulnerabilidade que sinto estes dias (e que aparecem no sonho que relatei acima). Deixei no Brasil meu pai agonizante de um câncer (ele morreria cerca de dois meses depois, no dia 19 de dezembro). Lowen logo percebeu quanto, naqueles dias, apesar dos meus 50 anos, eu não passava de um menino. E fez tudo para que eu crescesse. Pedi que me autorizasse a publicar, um dia, o que me disse - e, motivado pelas minhas perguntas, ele disse algumas coisas que não estão em seus livros.
Eu lhe disse quanto me sentia semelhante ao meu pai, e ele me perguntou: e qual é a grande diferença entre vocês?
- A diferença é que eu choro - respondi.
- Sim. E por isso você provavelmente não terá câncer. O grande erro dos que trabalham com pacientes de câncer é tentar, através de exercícios físicos e/ou psicológicos, fazê-los ficar mais fortes. Tentar fortalecer o paciente é conduzi-lo mais rápido para a morte. Pacientes de câncer devem ser incentivados a desistir e a chorar. Por isso quero escrever cada vez mais sobre o choro. As pessoas precisam aprender a chorar para se curar.
Queixei-me da dificuldade que eu tinha, muitas vezes, para ser ouvido pelas pessoas.
- Qualquer pessoa ouvirá você.
- Não, algumas não me ouvem - respondi.
- Ouvem, com certeza. Desde que você grite.
Perguntei sobre a possibilidade de substituir o "banquinho" (também chamado apenas de "stool", que é banco em inglês ) da Análise Bioenergética, criado por ele (no qual os pacientes pessoas se apóiam de costas, com os braços para trás, para abrir o peito e a respiração, possibilitando a expressão de sentimentos), pelas bolas plásticas usadas em ginástica e em fisioterapia - uma forma mais suave de propiciar a mesma postura. A própria Leslie Lowen, sua mulher, dava workshops ensinando o uso das bolas.
- Acho bobagem. É um banquinho mais gentil, mas um terapeuta não tem de ser gentil. Não é preciso. Uso o banquinho.
Com ele percebi a principal razão de estar engordando. De maneira absolutamente simples, me explicou:
- Você tem uma imensa raiva. Sobretudo, raiva de ser controlado, manipulado. Não expressa a raiva, porque sente uma grande culpa por sentir raiva. Toda essa contenção faz com que coma demais e engorde.
Depois de uma seqüência de trabalhos corporais (pediu-me para, deitado no banquinho, gritar fazendo um som agudo e sofrido, depois gritar com o som agudo e em seguida tossir, e depois gritar, tossir e respirar com os dentes à mostra. Sempre respirando profundamente no final). Chorei, desesperadamente. Finalmente, uma seqüência de "chutes" - exercício de bater as pernas na cama, deitado de costas -, dizendo "não".
Digo-lhe que sempre me disponho, como ele sugere, a fazer os chutes diariamente, ao acordar, mas não consigo me habituar. Hospedei-me dias depois no apartamento ao lado do dele, num hotel em que ele ministrou um workshop em Pawling, New Jersey, e o ouvi batendo os pés às 7 da manhã - contou-me que, tendo na época 82 anos, fazia uma seqüência de 700 batidas de pé na cama, e que chorava muito, todos os dias!
- Sabe por que você não pratica este exercício? Porque é bom para você praticar. Se fosse bom para as outras pessoas, você praticaria!
Expliquei-lhe os exercícios que eu fazia antes da natação. Ele aprovou apenas os de alongamento e condenou qualquer tipo de musculação ou contração muscular.
- As tensões da vida, as pressões emocionais, já fazem com que as pessoas contraiam a musculatura. Por isso não é preciso contrair. É preciso, isso sim, diluir os espasmos musculares, através do alongamento!
No workshop de Pawling fui novamente atendido por ele, em frente ao grupo. Trabalhou sobretudo a minha culpa. A certa altura, fez-me gritar um palavrão, a plenos pulmões, expressando minha raiva, até que eu perdesse as forças e caísse sobre um colchão (perdi, literalmente, a força nas pernas, e caí duas vezes). Ele me perguntou:
- Sentiu culpa?
- Não.
- Muito bom, muito bom!
E explicou:
- Para você, é muito difícil se entregar aos seus sentimentos. Aqui você se entregou, e caiu. Isso não é mau, é bom! Antes você estava se segurando muito para ser forte. Isso o impedia de gritar, e quem não pode gritar fica com sérios problemas, pois está eternamente se controlando.
Uma das suas observações que mais me impressionou e fez pensar foi sobre os momentos em que nos esforçamos ("não me esforço nunca", ele diz):
- Gritar não exige esforço. O esforço é justamente não gritar, não expressar os sentimentos. Gritar é apenas deixar de lado o controle. É muito fácil. Pergunte a um bebê e ele lhe dirá como é fácil.
Alexander Lowen tem hoje 94 anos e continua trabalhando, escrevendo, dando palestras e ministrando workshops. Até pouco tempo ainda velejava. "Só não quero mais cruzar nenhum oceano" - ele disse, em carta aos filiados do Instituto Internacional de Análise Bioenergética, do qual é fundador e presidente de honra. É um exemplo vivo da Análise Bioenergética que ensina. Em "Bioenergética" (Summus Editorial), ele conta que foi em sessões de terapia com Reich, que acabara de chegar aos Estados Unidos, em 1940, que ele se apaixonou pela psicoterapia corporal. Formado em Direito e funcionário da Justiça americana, Lowen era apaixonado por educação física e exercícios de calistenia, já tendo uma boa noção de quanto o trabalho corporal o ajudava a superar o mal estar mental e emocional. Estudou também Eurritmia, Ioga e técnicas de relaxamento, decidindo, finalmente, ir para a Faculdade de Medicina - curso que fez na Suíça. Desenvolveu uma prática e teorias próprias, a partir da abordagem reicheana. Com a ajuda de seu colega mais jovem, também médico e terapeuta reicheano, John Pierrakos (que, para esse fim, foi por três anos terapeuta de Lowen), Lowen criou e praticou novas técnicas, sobretudo para a expressão da agressividade, trabalhando com diversos exercícios em pé - a partir da posição vertical, com os joelhos fletidos, e depois dobrando o corpo para a frente, ainda em pé - assim desenvolveu o conceito de "grounding" (enraizamento), alternados com os tradicionais, na posição horizontal. Algum tempo depois, para facilitar o incremento da respiração (fundamental em seu trabalho), Lowen cria o banquinho bioenergético, a partir de um banco comum de cozinha. Len Hochmann, trainer internacional e um dos discípulos prediletos de Lowen (seu companheiro no workshop de 1993), tem uma definição dos objetivos da Análise Bioenergética, que é uma das minhas preferidas:
- A Análise Bioenergética quer que a pessoa veja o que ela está vendo, ouça o que está ouvindo e sinta o que está sentindo.
Ruy Fernando Barboza, CBT, 64 anos, é psicólogo clínico, jornalista e advogado, foi supervisor e membro do Conselho da Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética - SOBAB - e diretor técnico do Centro Oncológico de Recuperação e Apoio - CORA. É colaborador da Revista Cláudia, onde assina a coluna "Relações Delicadas".
Ruy Fernando Barboza
CONVERSAS COM ALEXANDER LOWEN (publicado originalmente na revista Mente e Cérebro, em fevereiro de 2005)
Autor: Ruy Fernando Barboza
Dia 28 de outubro de 1993, acordo, chorando, às 7h13 da manhã, em Nova York. Vou pegar o trem na Grand Central Terminal às 8h40, para estar em New Canaan, Connecticut, às 10h13. Lá terei minha primeira sessão com Alexander Lowen, criador da Análise Bioenergética, às 11 horas. Até então, só conheço Lowen pelos seus livros, e por uma foto, da capa de "Exercícios de Bioenergética", que ele escreveu com sua mulher Leslie (publicado no Brasil pela Editora Agora).
Ainda na cama, rememoro o sonho que acabei de ter. No sonho estou em sessão com Lowen, contando-lhe um sonho. E, enquanto conto, começo a viver, no meu sonho, o sonho que estou relatando. Estou sob um imenso viaduto, uma grande laje de concreto, e ao meu lado há uma ladeira muito íngreme, quase vertical, que um caminhão-pipa tenta subir e não consegue. O caminhão começa a voltar de ré e tenho medo que me esmague. Saio de lado, mas também tenho medo de que a laje caia sobre mim. Lowen interfere, me perguntando "What do you feel?" (O que você sente?) e eu respondo cometendo um lapso. Querendo dizer "Medo", digo "Fair, fair!" (justo), corrigindo em seguida para "Fear, fear!" (medo). Lowen tem um copo vazio na mão, e vai para a parte de trás do caminhão, abrindo uma torneira. A água jorra aos borbotões e eu sinto mais medo. Primeiro, porque era um roubo, e segundo porque havia um perigo naquilo. Assustado, digo "por que você faz isso? Não, não faça isso!". Imperturbável, Lowen, sempre no sonho, prossegue com a minha sessão, incentivando-me, enfaticamente, a gritar com ele, repetindo "por que você faz isso? Não, não faça isso! Vamos, diga", ele insiste. Acordo, num choro convulso e desesperado - que me lembrou um choro muito prolongado, que me ocorrera alguns dias antes, no Museu de Arte Moderna de Nova York, ao entrar na sala onde estavam algumas das imensas telas simples, fortes, quase monocromáticas - uma verde, outra vermelha, outra profundamente azul, do final da vida de Miró.
Vamos saltar para o dia seguinte, 29 de outubro de 1993, às 10h30 da manhã. Estou pela segunda vez na casa de Lowen, para uma nova sessão individual. Saindo para dar uma volta de carro (adora dirigir), ele passou por mim há alguns minutos, surpreso: "Chegou cedo!". "Medo de perder o táxi", eu respondo, e ele sorri com ironia. É que no dia anterior a conexão do trem em Stanford foi cancelada sem aviso, perdi um ônibus e apelei para um táxi que errou o caminho. Cheguei à sessão nervoso e 15 minutos atrasado. Hoje a ansiedade me levou a chegar 35 minutos adiantado. Foi bom. Ele me disse para ficar à vontade, percorrendo e fotografando o andar térreo de sua casa - um amplo e belíssimo condomínio rural, com haras, campos de flores, um bosque exuberante e um belo jardim cheios de esquilos, com caminhos de pedra, ainda ladeados pelas máscaras de abóboras do Halloween, que ocorreu há poucos dias. Os dias de outono estão lindos e o solo repleto de grandes folhas. Por timidez, perco a mais bonita das fotos: Leslie Lowen, na beleza de seus setenta e tantos anos, passeando pelo pátio com uma arara em cada braço. Ajudo-a em seguida a receber uma entrega de ovos, e ela me pede para abrir a porta para um que entrega latas de óleo.
Sinto-me bem acolhido, aliviando um pouco a angústia, a impotência, a vulnerabilidade que sinto estes dias (e que aparecem no sonho que relatei acima). Deixei no Brasil meu pai agonizante de um câncer (ele morreria cerca de dois meses depois, no dia 19 de dezembro). Lowen logo percebeu quanto, naqueles dias, apesar dos meus 50 anos, eu não passava de um menino. E fez tudo para que eu crescesse. Pedi que me autorizasse a publicar, um dia, o que me disse - e, motivado pelas minhas perguntas, ele disse algumas coisas que não estão em seus livros.
Eu lhe disse quanto me sentia semelhante ao meu pai, e ele me perguntou: e qual é a grande diferença entre vocês?
- A diferença é que eu choro - respondi.
- Sim. E por isso você provavelmente não terá câncer. O grande erro dos que trabalham com pacientes de câncer é tentar, através de exercícios físicos e/ou psicológicos, fazê-los ficar mais fortes. Tentar fortalecer o paciente é conduzi-lo mais rápido para a morte. Pacientes de câncer devem ser incentivados a desistir e a chorar. Por isso quero escrever cada vez mais sobre o choro. As pessoas precisam aprender a chorar para se curar.
Queixei-me da dificuldade que eu tinha, muitas vezes, para ser ouvido pelas pessoas.
- Qualquer pessoa ouvirá você.
- Não, algumas não me ouvem - respondi.
- Ouvem, com certeza. Desde que você grite.
Perguntei sobre a possibilidade de substituir o "banquinho" (também chamado apenas de "stool", que é banco em inglês ) da Análise Bioenergética, criado por ele (no qual os pacientes pessoas se apóiam de costas, com os braços para trás, para abrir o peito e a respiração, possibilitando a expressão de sentimentos), pelas bolas plásticas usadas em ginástica e em fisioterapia - uma forma mais suave de propiciar a mesma postura. A própria Leslie Lowen, sua mulher, dava workshops ensinando o uso das bolas.
- Acho bobagem. É um banquinho mais gentil, mas um terapeuta não tem de ser gentil. Não é preciso. Uso o banquinho.
Com ele percebi a principal razão de estar engordando. De maneira absolutamente simples, me explicou:
- Você tem uma imensa raiva. Sobretudo, raiva de ser controlado, manipulado. Não expressa a raiva, porque sente uma grande culpa por sentir raiva. Toda essa contenção faz com que coma demais e engorde.
Depois de uma seqüência de trabalhos corporais (pediu-me para, deitado no banquinho, gritar fazendo um som agudo e sofrido, depois gritar com o som agudo e em seguida tossir, e depois gritar, tossir e respirar com os dentes à mostra. Sempre respirando profundamente no final). Chorei, desesperadamente. Finalmente, uma seqüência de "chutes" - exercício de bater as pernas na cama, deitado de costas -, dizendo "não".
Digo-lhe que sempre me disponho, como ele sugere, a fazer os chutes diariamente, ao acordar, mas não consigo me habituar. Hospedei-me dias depois no apartamento ao lado do dele, num hotel em que ele ministrou um workshop em Pawling, New Jersey, e o ouvi batendo os pés às 7 da manhã - contou-me que, tendo na época 82 anos, fazia uma seqüência de 700 batidas de pé na cama, e que chorava muito, todos os dias!
- Sabe por que você não pratica este exercício? Porque é bom para você praticar. Se fosse bom para as outras pessoas, você praticaria!
Expliquei-lhe os exercícios que eu fazia antes da natação. Ele aprovou apenas os de alongamento e condenou qualquer tipo de musculação ou contração muscular.
- As tensões da vida, as pressões emocionais, já fazem com que as pessoas contraiam a musculatura. Por isso não é preciso contrair. É preciso, isso sim, diluir os espasmos musculares, através do alongamento!
No workshop de Pawling fui novamente atendido por ele, em frente ao grupo. Trabalhou sobretudo a minha culpa. A certa altura, fez-me gritar um palavrão, a plenos pulmões, expressando minha raiva, até que eu perdesse as forças e caísse sobre um colchão (perdi, literalmente, a força nas pernas, e caí duas vezes). Ele me perguntou:
- Sentiu culpa?
- Não.
- Muito bom, muito bom!
E explicou:
- Para você, é muito difícil se entregar aos seus sentimentos. Aqui você se entregou, e caiu. Isso não é mau, é bom! Antes você estava se segurando muito para ser forte. Isso o impedia de gritar, e quem não pode gritar fica com sérios problemas, pois está eternamente se controlando.
Uma das suas observações que mais me impressionou e fez pensar foi sobre os momentos em que nos esforçamos ("não me esforço nunca", ele diz):
- Gritar não exige esforço. O esforço é justamente não gritar, não expressar os sentimentos. Gritar é apenas deixar de lado o controle. É muito fácil. Pergunte a um bebê e ele lhe dirá como é fácil.
Alexander Lowen tem hoje 94 anos e continua trabalhando, escrevendo, dando palestras e ministrando workshops. Até pouco tempo ainda velejava. "Só não quero mais cruzar nenhum oceano" - ele disse, em carta aos filiados do Instituto Internacional de Análise Bioenergética, do qual é fundador e presidente de honra. É um exemplo vivo da Análise Bioenergética que ensina. Em "Bioenergética" (Summus Editorial), ele conta que foi em sessões de terapia com Reich, que acabara de chegar aos Estados Unidos, em 1940, que ele se apaixonou pela psicoterapia corporal. Formado em Direito e funcionário da Justiça americana, Lowen era apaixonado por educação física e exercícios de calistenia, já tendo uma boa noção de quanto o trabalho corporal o ajudava a superar o mal estar mental e emocional. Estudou também Eurritmia, Ioga e técnicas de relaxamento, decidindo, finalmente, ir para a Faculdade de Medicina - curso que fez na Suíça. Desenvolveu uma prática e teorias próprias, a partir da abordagem reicheana. Com a ajuda de seu colega mais jovem, também médico e terapeuta reicheano, John Pierrakos (que, para esse fim, foi por três anos terapeuta de Lowen), Lowen criou e praticou novas técnicas, sobretudo para a expressão da agressividade, trabalhando com diversos exercícios em pé - a partir da posição vertical, com os joelhos fletidos, e depois dobrando o corpo para a frente, ainda em pé - assim desenvolveu o conceito de "grounding" (enraizamento), alternados com os tradicionais, na posição horizontal. Algum tempo depois, para facilitar o incremento da respiração (fundamental em seu trabalho), Lowen cria o banquinho bioenergético, a partir de um banco comum de cozinha. Len Hochmann, trainer internacional e um dos discípulos prediletos de Lowen (seu companheiro no workshop de 1993), tem uma definição dos objetivos da Análise Bioenergética, que é uma das minhas preferidas:
- A Análise Bioenergética quer que a pessoa veja o que ela está vendo, ouça o que está ouvindo e sinta o que está sentindo.
Ruy Fernando Barboza, CBT, 64 anos, é psicólogo clínico, jornalista e advogado, foi supervisor e membro do Conselho da Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética - SOBAB - e diretor técnico do Centro Oncológico de Recuperação e Apoio - CORA. É colaborador da Revista Cláudia, onde assina a coluna "Relações Delicadas".
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